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As Antigas Religiões de Mistério e o Cristianismo

As Antigas Religiões de Mistério e o Cristianismo

Conforme vimos anteriormente, a ritualística cristã, mais particularmente a ritualística católica, herdou vários elementos do Judaísmo – a celebração da Páscoa, por exemplo, para não falar da coletânea sagrada de livros que conhecemos como Bíblia, com seus 66 livros [ou 73 ou 75 ou 68 ou 70, dependendo de qual cânon sua denominação segue].

Alguém poderia questionar que o Cristianismo só herdou do Judaísmo os 39 livros [ou 46 ou 48 ou… vocês entenderam] do Antigo Testamento, mas o caso é que Yeshua era judeu praticante, seus ensinamentos apoiando-se nas leis e costumes judaicos. Houve, inclusive, uma grande disputa entre os cristãos primitivos no século I d.C. sobre este assunto.

São Shemayon Keppa, nosso São Pedro, defendia que aqueles que se convertessem ao Cristianismo deveriam seguir praticamente todos as regras judaicas – só comer comidas kosher, guardar o Sabbath, não tocar mulheres menstruadas, ; São Paulos, por sua vez, defendia que a Igreja deveria abrir suas portas aos gentios. O líder da Igreja Primitiva, autoridade maior em Jerusalém, era São Ya’akov, isto é, Tiago, o Justo, irmão de Yeshua, e foi ele quem presidiu o Concílio em 50 d.C. e resolveu a questão, decidindo que os gentios poderiam se converter ao Cristianismo sem obedecer às obrigações do Judaísmo.

Mesmo descartando a Lei de Moisés e aceitando somente as palavras dos Evangelhos, o Novo Testamento é baseado majoritariamente em uma visão de mundo judaica. Quer dizer, quase isso. Os judeus não tinham território independente há muitos séculos, desde a época dos Reinos do Norte e do Sul, do Rei David e do Rei Shlomo. Mesmo o período que começou com a revolta de Yehuda ha-Makabi garantiu somente um reino tributário e os dois Livros de Macabeus indicam como os judeus buscaram a aliança e a submissão dos romanos e dos gregos.

Por conta disso, o Oriente Médio como um todo passou por muitos séculos de influência grega, macedônia e romana. Quando mencionamos Pontius Pilatus, estamos falando do quinto praefectus da província romana da Judaea, um funcionário público enviado pelo imperador romano para administrar o território. Quando discutimos os governos e as ações de Herodes I, o Grande, e de seu filho, o tetrarca Herodes Antipatros da Galilea e Peraea, são governantes de origem edomita com nomes e costumes helênicos.

Como vimos anteriormente, os judeus eram semitas e seus costumes religiosos e crenças moldaram e foram moldados por todos os demais povos semitas, dos amoneus e árabes até os sumérios e os habitantes de Ur. O Cristianismo desenvolvido nos territórios romanos só poderia ter sido influenciado pela religião e pelos costumes do império, particularmente pelas Religiões de Mistério.

Os Mistérios, como eram conhecidos no mundo da Antiguidade, eram escolas religiosas cuja participação era reservada aos Iniciados, conhecidos como mystai. As cerimônias giravam em torno dos mistérios dos deuses, revelando verdades sobre o mundo, o Universo, a divindade e a humanidade.

A mais famosa das Religiões de Mistério da Antiguidade certamente é a escola situada em Elêusis e, por isso, conhecida como Mistérios Elêusinos. Fundada por volta do ano 1.500 a.C., seus Iniciados incluíram praticamente todos os grandes filósofos e magos do Mundo Antigo, governantes da Europa, da Ásia e da África e até imperadores romanos, como Juliano, o Filósofo [ou o Apóstata, como os historiados cristãos macularam sua memória].

Os Mistérios de Elêusis, que eram dedicados às deusas Demeter e Persephone, se dividiam nos Mistérios Menores e Maiores. Quem participava pela primeira vez era introduzido nos Mistérios Menores, onde representações [que mais tarde dariam origem às peças de teatro] simbolizavam a verdade sobre a relação da alma com o corpo, como os humanos encarnavam e desencarnavam. Os Mistérios Maiores, cujo acesso era reservado aos Iniciados que houvessem se dedicado e atingido a épopteia, a “contemplação, tratavam da natureza do espírito e como era possível alcançar a anabasis, o retorno em direção à Origem.

Além de Elêusis com suas cerimônias baseadas em Demeter e Persephone, existiam diversas outras escolas menores espalhadas ao longo da costa do Mediterrâneo. Dionysos era celebrado na Trácia, em Creta, em Pompeia, em Atenas e no Monte Parnassus, entre muitos outros lugares [Dionysos era um deus de extrema importância, oferencendo a dádiva das bebidas enteóginas e da transformação; é bastante significativo o quando sua imagem foi difamada até ele se tornar um deus bêbado e alívio cômico das versões modernas da mitologia antiga].

A ilha de Imbros, hoje parte da Turquia, era consagrada ao deus Hephaistos e era famosa a religião de mistérios dedicada a esse deus em sua qualidade fálica. Na Samotrácia, outra ilha do Mediterrâneo, parte da Grécia atual, os Mistérios eram abertos a escravos e homens livres. O Orfismo era baseado nos ensinamentos de Orfeu, criador dos Mistérios Dionisíacos. Em Tebas e na ilha de Lemnos, existiam Iniciações baseadas nos enigmáticos Kábeiroi.

Despoina, filha de Demeter e Poseidon, era a responsável pelos Mistérios na região de Arcádia, em Minos e em Micenas. Na Beócia, as Iniciações ocorriam sob a direção de Trophonios, cuja natureza – herói, deus ou daemon – jamais ficou clara para os historiadores modernos. Seus trabalhos ocorriam com homenagens a Zeus Meilikhios e Zeus Khthonios.

A lista realmente é grande e nós temos poucas informações públicas sobre os Mistérios, visto que uma de suas principais características era o sigilo guardado pelos Iniciados. Para além da influência grega, sabemos dos Mistérios de Iset e de Osíris no Egito, do deus da vegetação Attis e de Kybelis na Frígia e na Anatólia, das Iniciações em nome de Sabazios entre os frígios e os trácios, das cerimônias instruídas por sacerdotes de Serapis na cultura greco-egípcia, e das Sete Iniciações e dos Templos em cavernas e criptas dos Mistérios Mitraicos.

[Não podemos deixar de observar que os Iniciados precisavam sair do conforto de suas casas e famílias e viajar pelo mundo para encontrar os mestres. Pitágoras, por exemplo, passou 40 anos em jornada, aprendendo no Egito e na Etiópia, na Arábia, na Pérsia e na Índia, no Cáucaso e na Grécia, antes de começar sua Escola em Crotona, onde hoje é a Itália. Hoje, reclamam de ter que viajar para outra cidade por avião e ficar em hotéis.]

Foram justamente essas grandes cerimônias que influenciaram o Cristianismo como o vemos hoje. Madame Blavatsky, ao escrever As Raízes da Ritualística na Igreja e na Maçonaria, faz comentário a mais de cem exemplos dessa sucessão. O Mito Solar, por exemplo, que representa a jornada do Sol no dia e no ano, já era conhecido pelos judeus através da história de Sansão e é revisitado em Yeshua quando ele morre e ressuscita três dias depois [os três dias que o Sol tem a menor elevação no céu, ao redor do Solstício de Inverno].

A lanterna com a chama que jamais se apaga, presente em todas as igrejas, é herança dos cultos a Hestia [gregos] e Vesta [romanos], muito embora hoje em dia as congregações estejam utilizando lâmpadas elétricas ao invés do Fogo. A roupa de Maria, com seu manto azul salpicado de estrelas, é baseada nas vestes de Nuit e de Iset, do Antigo Egito. Os altares vieram das aras dos templos romanos.

A relaçaõ entre Deus-Pai e Deus-Filho já era debatida entre as sociedades proto-indo-europeias, na diferenciação entre Dyaus e seu Filho. A “Descida ao Inferno” [“Creio em Jesus Cristo… desceu à Mansão dos Mortos, ressuscitou ao terceiro dia…”] é a katabasis que encontra ecos similares em Herakles e Teseu, em Orfeu e em Krishna.

Nos Mistérios de Elêusis, o vinho representava Dionysos, enquanto o trigo representava Demeter – temos aí o vinho e o pão da Eucaristia. O Hierofante era chamado de “Pai”, o pater latino, nosso “padre”. As Litanias de Jesus e de Maria, que recitam seus títulos, são longas listas com os nomes com que eram conhecidos os deuses e deusas da Antiguidade. Blavatsky afirma que Maria é Iset Myrionymos, a Deusa Mãe dos dez mil nomes!

A roupa do sacerdote católico imita a dos sacerdotes de Demeter. Sua oferta de trigo em forma de bolo e vinho dentro de um cálice reproduzem os festivais chamados de Ambarvales. Três vezes o sumo sacerdote de Demeter andava ao redor do altar carregando as oferendas, três vezes o padre carrega o paõ e o vinho ao redor do altar principal.

Blavatsky cita o Papa São Gregório, o Grande [540 – 604], que recomenda ao monge Agostinho, seu missionário na Inglaterra: “Destrua os ídolos, jamais os templos! Aspirja-os com água benta, coloque neles relíquias e deixe que as nações adorem nos locais em que já estão acostumadas.” Em outra passagem, Blavatsky nos lembra que “o Cardeal Caesar Baronius [1538 – 1607] diz que a Santa Igreja recebeu permissão para se apropriar dos ritos e cerimônias usadas pelos pagãos em seus cultos idólatras, pois ela (a Igreja) os expia por sua consagração!”

E o que fez a Igreja do Cristianismo com esses Mistérios, esses grupos que lhe legaram a grande base de sua ritualística para que fosse alcançada a ligação com a Divindade conforme é praticada há milênios? As Religiões de Mistério foram perseguidas pelo Império Romano cristão. Seus sacerdotes foram mortos, seus Iniciados foram proibidos de ocuparem cargos públicos, seus Templos foram saqueados e fechados. A grande Escola em Elêusis, depois de 2 mil anos de existência, teve seus santuários destruídos e profanados em 396 d.C. O Colégio das Vestais foi dissolvido em 394 d.C. Sobre as criptas e cavernas do Mitraísmos, contruíram-se igrejas cristãs.

Mesmo assim, não podemos dizer que as práticas dos Mistérios morreram, quando a Igreja ajudou a espalhar pelo mundo seus costumes, quando as imagens que temos de Yeshua e de Mariam nada têm de judaicas e tudo têm de greco-romanas. Os Iniciados transmitiram dentro do Cristianismo as grandes verdades e muitos sacerdotes cristãos foram e continuam a ser Mystai, embora atuem em segredo para não despertar a ira dos príncipes de Roma.

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