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O Evangelho diferente – São João

O Evangelho diferente – São João

A forma atual do Novo Testamento conta com quatro Evangelhos – São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. Os três primeiros são chamados de Evangelhos sinópticos porque contêm as mesmas histórias, contadas na mesma ordem e com palavras similares:

Jesus é batizado por São João Batista, tentado no deserto, consegue seus primeiros discípulos, é rejeitado em sua cidade natal, cura alguns doentes, reúne os Doze Apóstolos, ensina através de parábolas, acalma a tempestade, alimenta os 5000, prevê sua morte, entra montado no burrico no Domingo de Ramos, expulsa os mercadores do Templo, condena os fariseus, realiza a Última Ceia, passa pela Paixão, Crucificação, Morte e Sepultamento. O Sepulcro aparece vazio e Jesus ressuscitado instrui os discípulos a espalharem seus ensinamentos.

Esse roteiro comum, chamado de “tripla tradição”, corresponde a 76% do Evangelho segundo São Marcos, 46% do Evangelho segundo São Matheus e 41% do Evangelho segundo São Lucas! Dos 24% restantes do São Marcos, 18% são comuns a São Mateus e 3% a São Lucas, de modo que apenas 3% são únicos.

É por este motivo que se acredita que o Evangelho segundo São Marco seja o mais antigos dos três. Os autores dos Evangelhos segundo São Mateus e segundo São Lucas utilizaram esse texto como base para seus relatos – não meramente para copiar, mas para garantir a uniformidade do relato. Afinal, se você vai contar a história mais importante do mundo, é bom ter certeza de que o que você está dizendo confere com a autoridade do assunto, certo?

Entre os Evangelhos segundo São Mateus e São Lucas, existe uma “dupla tradição”, isto é, palavras em comum a estes dois Evangelhos que não aparecem em São Marcos. Essa dupla tradição corresponde a aproximadamente 1/4 de cada livro. Por esse motivo, acredita-se que os dois tenham se baseado em um outro Evangelho antigo, desconhecido para nós, chamado de Q, inicial de Quelle, “fonte” em alemão.

É provável que o manuscrito Q fosse uma coletânea de frases e atos de Jesus. A principal pista nessa direção é uma das obras mais antigas do Cristianismo, a Exposição dos Provérbios do Senhor, escrita por Papías de Hierapolis no final do século I. Papias foi um ancião que aprendeu com João, o Presbítero, e conheceu Policarpo, o centenário bispo de Smyrna do século II.

Infelizmente, a Exposição de Papias é uma obra perdida. Ela sobreviveu até a Idade Média, mas as cópias remanescentes parecem ter desaparecido. Nós a conhecemos somente através de citações, somando 25 fragmentos, e sabemos que tratava-se, na verdade, de cinco livros. O Livro I trazia a pregação de São João Batista. O Livro II incluía a passagem sobre a mulher adúltera, o Paraíso e as mortes de São Tiago e São João. O Livro III relatava as histórias de Jesus em Jerusalém. O Livro IV falava sobre a Paixão de Cristo, a morte de Judas e a queda dos anjos. Por fim, o Livro V apresentava o que aconteceu após a Ressurreição.

Papias, cujas fontes eram os Doze Apóstolos e seus discípulos, afirma que São Marcos escreveu seu Evangelho a partir dos aforismos e das histórias que São Pedro lhe contou. São Mateus, por sua vez, teria escrito seu Evangelho primeiro em hebraico, não como uma narrativa, mas como frases soltas. Ao convertê-lo para o grego, criou-se a narrativa que hoje conhecemos, para permitir a leitura como uma história.

Assim, deve ter ficado claro que os Evangelhos que temos hoje na Bíblia não apareceram prontos! São livros que evoluíram a partir da tradição oral e de textos mais antigos, hoje perdidos. O Evangelho segundo São Marcos e o manuscrito Q provavelmente faziam parte dessa biblioteca original. A eles, junta-se o Evangelho dos Sinais, o texto com os milagres que Jesus realizou e que seria uma das fontes do quarto Evangelho, aquele atribuído a São João.

O Evangelho segundo São João tem como autor “o discípulo que Jesus mais amou”, geralmente entendido como São João Evangelista, o mais novo dos Apóstolos. Alguns autores defendem que se trata de Maria Madalena, a discípula que teria sido esposa de Jesus e mãe de seus filhos. Há até hoje a discussão se esse discípulo seria o mesmo João que escreveu o Apocalipse e as três Epístolas de João do Novo Testamento.

Madame Blavatsky chega a afirmar que o Evangelho segundo São João é uma adaptação de uma obra muito mais antiga, reformulada para se adequar à nova religião. Há séculos, os estudiosos discutem a influência do judeu helenizado Fílon, uma vez que as icônicas palavras iniciais do livro – “No princípio, era o Verbo [Logos em grego] e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” – é quase uma paráfrase do seu conceito de Logos, a palavra-viva que dá origem ao mundo.

Considerado o mais místico e mais espiritual dos Evangelhos, nele vemos Jesus admitir seu papel como emissário divino. Nos Evangelhos sinópticos, Jesus mantém seu papel de Messias em segredo. Em São João, ele afirma que é “o pão da vida” [6:35], “a luz do mundo” [8:12], “a porta das ovelhas” [10:7], “o bom pastor” [10:11], “a ressurreição e a vida” [11:25], “o caminho, a verdade e a vida” [14:6], “a videira verdadeira” [15:1].

É por este motivo que Blavatsky dedicou um mês dos trabalhos de sua Loja em Londres ao estudo do Evangelho segundo São João. Suas observações, que evidenciam as sutilezas da interpretação do grego, apenas reforçam o entendimento de que este livro foi escrito para profunda meditação, com as chaves de compreensão sobre o verdadeiro Ministério de Jesus, aquele que “só quem tem olhos para ver e ouvidos para escutar” seria capaz de apreender.

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