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Qual é a origem do Tarot? – Parte I

Essa é uma das perguntas mais comuns sobre o tarot e sua resposta é uma das mais controversas. Aleister Crowley, por exemplo, o “homem mais perverso do mundo” e ocultista mais influente do século XX, defendia que o tarot era o Livro de Thoth e tinha sua origem nas antigas dinastias do Egito, entre os sacerdotes do deus Thoth, responsável pela escrita e pelo conhecimento. Boiteau e Vaillant, dois escritores franceses do século XVIII, diziam que o tarot tinha origem entre os ciganos. Eliphas Lévi, por sua vez, afirmava que o tarot havia, sim, chegado à Europa através dos ciganos, mas que antes disso, os judeus teriam passado essas cartas ao povo nômade.

Em A Chave Ilustrada do Tarot, Waite dedica a última seção da Parte I do livro a entender o Tarot na História. Com espírito crítico, que alguns chamariam de exageradamente sarcástico e mordaz, Waite elabora um resumo de todas as teorias apresentadas até o início do século XX e o que havia de fato confirmado naquilo tudo.

Antes de investigarmos o assunto, é preciso entendermos que o tarot é dividido em Arcanos Maiores e Arcanos Menores. “Mas isso não era óbvio?”, pode perguntar alguém. Sim, mas o que não é tão óbvio é que essa divisão existe porque as duas partes tiveram origens distintas! Essa hipótese, defendida por Waite, explica, por exemplo, porque os Arcanos Maiores sempre tiveram imagens, enquanto os menores apenas vinham com as “pintas”, os símbolos do naipe daquela carta no número apropriado [por exemplo, para o 7 de Espadas, 7 “pintas”, ou seja, 7 símbolos de espadas].

Vamos, então, à origem dos Arcanos Menores! A autoridade neste assunto é William Henry Wilkinson [1858 – 1930], um diplomata britânico que serviu durante duas décadas como cônsul em diversas cidades chinesas. Wilkinson escreveu em 1895 um tratado que até hoje é referência, Chinese Origin of the Playing Cards, de modo que utilizaremos as informações dele para traçar o caminho das cartas menores.

A primeira referência às cartas de jogo é o chamado “jogo da folha”. Em 868, o escritor chinês Su E menciona que a Princesa Tongchang, filha do Imperador Yizong de Tang, entretia os membros do clã de seu marido, Wei, com o “jogo da folha”. O primeiro livro exclusivamente sobre o assunto era o Yezi Gexi, escrito por uma mulher da dinastia Tang e comentado por diversos escritores das dinastias subsequentes. Ouyang Xiu [1007 – 1072] comenta que as “folhas” eram utilizadas em conjunto com os dados, mas que as regras do jogo já não eram mais conhecidas no ano de 1067.

O primeiro baralho, com 32 cartas, foi impresso através de blocos de madeira sobre folhas de papel no século XI. Entre elas, 21 das cartas representavam as 21 combinações de números do jogo de dominó chinês, representando os 21 resultados não-repetidos ao se lançar 2 dados de 6 faces. Foram estas cartas que viajaram através da Rota da Seda e chegaram à Pérsia e ao Egito. É importante observar que, embora a origem seja a China, não a Índia, a época coincide com o momento da migração dos ciganos do noroeste da Índia em direção ao Oriente Médio e dali, à Europa.

Durante uma época, acreditou-se que o caminho até a Europa teria sido feito através da Pérsia e do jogo conhecido como ganjifa, ganjafa, ganjapa, ganjifeh ou gânjaphâ. No ganjafa, as cartas retangulares foram transformadas em discos. O número de naipes cresceu para oito, embora sejam conhecidos conjuntos de ganjafa com 32 naipes. Cada naipe possuía doze discos: os números de 1 a 10 e duas cartas de corte – o rei e o vizir.

No entanto, a porta de entrada mais provável é o Egito. Existem evidências de cartas de jogo desde o século XI, os exemplares mais antigos ainda existentes datando do final do século XII. Os mamelucos eram conhecidos por desenvolver baralhos com lindos desenhos para as 13 cartas de cada um de seus 4 naipes: bastões de polo, moedas, espadas e taças. A cada naipe, correspondiam as 10 cartas numéricas e 3 cartas de corte – o malik [rei], o nā’ib malik [rei adjunto] e o thānī nā’ib [segundo adjunto]. Como o cargo de thānī nā’ib jamais existiu, acredita-se que essa carta não existia nas primeiras versões, tornando a estrutura de cada naipe [com 12 cartas] idêntica à do ganjafa. O contato entre os dois jogos é sugerido ainda pelo fato de que o Rei de Espadas até hoje traz a palavra kanjifah em árabe.

De lá, as cartas provavelmente entraram na Europa pelo Mediterrâneo. Os mamelucos provavelmente foram os portadores porque os primeiros baralhos utilizam seus naipes, apenas substituindo os bastões de polo por clavas, já que o polo enquanto esporte era muito pouco conhecido na região. Existem evidências concretas das 52 cartas de jogo na Cataluña, em 1371; na Suiça, em 1377; em Florença e em Paris, em 1380.

Essas primeiras cartas eram feitas a mão e, por isso, seriam objetos de encomenda dos lordes da época. Há um regitro de 1379 em que a Duquesa Johanna de Brabante, e seu marido, Duque Wenceslas I de Luxemburgo, ordenam a fabricação de um baralho, enquanto em 1393, o Rei Charles VI, o Bem Amado, pagou a pintura de três conjuntos.

Desde então, poucas coisas mudaram para os baralhos de jogo. Quando entraram no território alemão, as cartas tiveram seus naipes substituídos por folhas, corações, sinos e bolotas, enquanto na França os símbolos adotados foram trevos, telhas, corações e lanças. As cartas de corte mantiveram o Rei, mas alteraram as outras duas para Rainha e “Knave”, que na época representava o Infante real [o Príncipe] e, eventualmente, passou a significar um servo, o Valete. Como Rei, “King”, e “Knave” começavam com a mesma letra, eventualmente na Inglaterra popularizou-se o nome Jack para a menor carta da corte.

Agora, como exatamente essas cartas que vieram da China foram parar no tarot, com seus quatro Arcanos de Corte? E qual foi o caminho percorrido pelos Arcanos Maiores? Quando as cartas passaram a ser utilizadas para divinação e por que alguns autores defendem que as cartas de jogo, na realidade, são uma corruptela de um antigo oráculo, se elas vieram da China já como instrumentos de entretenimento? A resposta está no jogo conhecido como trionfi e nos baralhos da Itália do século XV, sobre o qual discutiremos no artigo seguinte.

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