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Qual é a origem do Tarot? – Parte II

Qual é a origem do Tarot? – Parte II

Até chegar na Europa do século XIV, os Arcanos Menores percorreram um longo caminho de mais de 500 anos – começaram na China, em 868, em um baralho de 32 cartas no “jogo de folhas”. Por volta do século XI, acompanharam os viajantes pela Rota da Seda e chegaram até a Pérsia e o Egito. Entre os persas, as cartas foram transformadas em discos e os naipes contavam com 12 elementos – os números de 1 a 10 e dois membros da corte: o Rei e o Vizir.

Entre os egípcios, e mais especificamente os mamelucos, adotaram-se quatro naipes – bastões de polo, espadas, moedas e taças -, cada um deles com 13 cartas – os números de 1 a 10 e três membros da corte: o Rei, o Rei Adjunto e o Segundo Adjunto. Através do Mediterrâneo, as cartas alcançaram o Sul da Europa – Cataluña, Itália, França e Suiça.

Antes de avançarmos para a história dos Arcanos Maiores, é interessante resolvermos uma das perguntas que ficaram pendentes em relação aos Menores: se eles já vieram para o Ocidente como cartas de jogo, por que algumas pessoas afirmam que o baralho de carteado que temos hoje em dia é uma corruptela, uma apropriação profana de um instrumento divinatório sagrado? Elas não conhecem a história do objeto de que escrevem ou falam?

Teremos que fazer um desvio da história do tarot para solucionar esse problema, mas será útil para entender a relação entre as ferramentas de divinação e de entretenimento. Se recodarmos com atenção, veremos que as cartas de jogo chinesas eram representações impressas dos 21 resultados únicos do jogo de dominó: 1-1, 1-2, 1-3, 1-4, 1-5, 1-6, 2-2, 2-3, 2-4, 2-5, 2-6, 3-3, 3-4, 3-5, 3-6, 4-4, 4-5, 4-6, 5-5, 5-6, e 6-6.

É fácil perceber que, diferente do jogo de dominó com que estamos acostumados no Brasil, não há combinações com o número 0. O motivo é que essas peças nada mais eram do que as representações dos resultados possíveis quando se lançavam dois dados de 6 faces simultaneamente. O dado não tem 0, as peças de dominó também não tinham.

Os dados eram utilizados na astragalomancia ou cleromancia, um dos ramos mais antigos de divinação. Esta prática é tão antiga e universal que temos evidências dela anteriores à história escrita! Na Grécia, encontraram-se dados feitos de osso próximo ao altar de Aphrodite Ourania, em Atenas. O povo Xona emprega há milênios os “hakata”. Ao longo da costa do Mediterrâneo e no Oriente Próximo, diversos arqueólogos relataram encontrar esses objetos próximos a templos e locais sagrados.

Assim, explica-se por que a origem dos Arcanos Menores também é a divinação sagrada – as cartas vieram dos dominós e os dominós vieram dos dados, que eram empregados pelos astragalomantes para tirar a sorte. Essa relação com a sorte e o azar naturalmente deu origem aos jogos de azar – que muitos consideram uma corruptela ou profanação das ferramentas sagradas. Temos registros do século XXVI a.C. de dados como parte do Jogo Real de Ur, na Mesopotâmia.

Solucionado nosso primeiro enigma, dediquemo-nos aos Arcanos Maiores. Em A Chave Ilustrada do Tarot, Waite menciona que as cartas mais antigas relacionadas ao tarot e que eram conhecidas no início do século XX eram parte do baralho de 50 cartas de Baldini, datadas em 1470. Este baralho era dividido em cinco denárias e vale a pena reproduzir aqui essas sequências:

  • Condições de Vida: (1) o Mendigo, (2) o Valete, (3) o Artesão, (4) o Mercador, (5) o Nobre, (6) o Cavaleiro, (7) o Doge, (8) o Rei, (9) o Imperador, (10) o Papa;
  • Musas e seu Líder Divino: (11) Calíope, (12) Urânia, (13) Terpsícore, (14) Erato, (15) Polímnia, (16) Tália, (17) Melpômene, (18) Euterpe, (19) Clio, (20) Apolo;
  • Artes Liberais e Ciências: (21) Gramática, (22) Lógica, (23) Retórica, (24) Geometria, (25) Aritmética, (26) Música, (27) Poesia, (28) Filosofia, (29) Astrologia, (30) Teologia;
  • Artes Liberais e Virtudes: (31) Astronomia, (32) Cronologia, (33) Cosmologia, (34) Temperança, (35) Prudência, (36) Força, (37) Justiça, (38) Caridade, (39) Esperança, (40) Fé;
  • Sistema dos Céus: (41) Lua, (42) Mercúrio, (43) Vênus, (44) Sol, (45) Marte, (46) Júpiter, (47) Saturno, (48) Uma Oitava Esfera, (49) Primum Mobile, (50) Causa Primeira.

Waite nos adverte contra tentar extrair sequências completas do Tarot dessas denárias, como identificar as Condições de Vida com os Arcanos Maiores, as Musas com o naipe de Pentáculos, etc. Por outro lado, é inevitável perceber similaridades entre diversas cartas – a Força de Baldini, por exemplo, é representada quebrando uma coluna e ao lado de um leão domesticado; Marte é um guerreiro de armadura dentro de um carro coberto com dossel; o Mendigo é acompanhado por dois cães, um dos quais salta em sua perna; e por aí em diante.

No entanto, entre as cartas de Baldini e a primeira aparição confirmada dos Arcanos Menores na Europa [Cataluña, 1381], temos cerca de 90 anos de diferença. Onde é que esses dois conjuntos se encontraram? A resposta está no pedido mencionado ao final da primeira parte deste artigo, que o Rei Charles VI fez em 1393.

Waite indica que 17 dessas cartas estão guardadas na Bibliothèque du Roi, em Paris, sendo muito bonitas, com fundo dourado e moldura prateada. Infelizmente, não estão acompanhadas de legenda ou número. Mesmo assim, elas certamente incluem Arcanos Maiores – Louco, Imperador, Papa, Enamorados, Roda da Fortuna, Temperança, Fortaleza, Justiça, Lua, Sol, Carro, Eremita, Pendurado, Morte, Torre e Julgamento Final.

Outras nove Cartas deste conjunto estão espalhadas pela Europa e incluem dois Pajens ou Valetes, três Reis e duas Rainhas, representando assim os Arcanos da Corte. A encomenda foi feita para artesão de Veneza e é nas cidades na península italiana que vamos finalmente localizar o jogo de trionfi, ou “trunfos”.

No final do século XIV e início do século XV, as 52 cartas menores foram combinadas com os “trunfos maiores” em cidades com Gênova, Veneza e Florença. Estes conjuntos, encomendados por lordes de grande poder, como os Sforza, os d’Este e os Visconti, geralmente celebravam alguma data especial, como um casamento entre famílias ou um ano de Jubileu da Igreja.

Justamente o casamento entre Francesco Sforza e Bianca Maria Visconti, filha do Duque de Milão, nos proporcionou o tarot que hoje é conhecido como Visconti-Sforza. Para esta ocasião, o Duque encomendou 15 baralhos com as 78 cartas que hoje identificamos como os Arcanos Maiores e os Arcanos Menores, resultado da inclusão do Cavaleiro entre os Arcanos de Corte de cada naipe.

É curioso observar que o primeiro desses baralhos, encomendado particularmente ao Duque, continha na verdade 86 cartas, pois os Arcanos de Corte eram 6 para cada naipe: Rei e Rainha, Cavaleiro e Amazona, Valete e Donzela. Outra modificação específica era a presença entre os Arcanos Maiores das três virtudes teologais, Fé, Esperança e Caridade.

Em seu resumo, Waite implicitamente afirma que os Arcanos Maiores sempre tiveram um propósito mais profundo do que a divinação. Não que a divinação em si seja uma coisa frívola – é que na enorme lista de coisas que Waite desprezava como inferior e fútil, sua prática estava incluída. O caso é que as cartas que compõem os Arcanos Maiores foram pensadas desde o princípio para retratarem de forma simbólica conceitos e verdades, enquanto os Arcanos Menores tinham como objetivo “somente” indicar um resultado que a “sorte” revelava ao consulente.

Da Itália, as cartas do tarot seguiram para a França após Milão ser conquistada pelos franceses, onde foram popularizadas como o jogo de cartas de tarot. Eventualmente, na região de Marselha, criou-se um padrão de desenhos para os Arcanos Maiores que passou a ser conhecido como o “tarô de Marselha”. Apesar de alguns apaixonados por esse tarô alegarem que esse é o padrão original, a realidade é que o tarô sempre se prestou a múltiplas interpretações, guardada a ressalva de que os Arcanos sempre transmitissem por simbolismo seus significados essenciais.

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